Tem aquela história da cobra e da picada, do feitiço e do feiticeiro. Adapte-se aos novos tempos é a máxima que o movimento frenético da roda do progresso balbucia como mantra aos ouvidos. Começam, entretanto, a aparecer sinais – virtuais que sejam – a nos permitir interpretar que adaptar-se aos novos tempos pode significar justa e paradoxalmente o desprezo pela roda.
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
A Roda.
Tem aquela história da cobra e da picada, do feitiço e do feiticeiro. Adapte-se aos novos tempos é a máxima que o movimento frenético da roda do progresso balbucia como mantra aos ouvidos. Começam, entretanto, a aparecer sinais – virtuais que sejam – a nos permitir interpretar que adaptar-se aos novos tempos pode significar justa e paradoxalmente o desprezo pela roda.
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
Sobre...
domingo, 16 de agosto de 2009
Gota de resignação.
Chega de verdade, chega de querer parar o tempo, chega de oceano de revolta. Vivo a simplicidade das coisas. O mundo que cheiro, degusto e sinto. Chega de universo se movendo, viva o movimento do universo. Descanso em paz. Não encontro respostas para grandes perguntas e fico satisfeito. Amanhã tudo muda novamente e o turbilhão da vida prossegue seu curso tortuoso, quase aleatório, quase manuseado pela projeção de nós. Não sou nada em meio à tamanha imensidão. Sou um ponto se movendo em uma imagem de satélite, entre tantos outros pontos que, sem saber, constroem satélites que nos vêem e nada dizem sobre nós. Assim é a vida: besta e sem sentido. Para respirar é preciso, quando em vez, viver com toda intensidade essa falta de sentido. Inspira, respira. (...) Não é bom?
terça-feira, 11 de agosto de 2009
Caos II
Arrigo Barnabé é daqueles que fizeram da sua arte uma obra póstuma. A violência do som dodecafônico não somente está em perfeita sintonia com o caos metropolitano como aponta para o que será ele no futuro, quando não mais conseguirmos respirar sem sufocar quem estiver à nossa volta. A música de Arrigo nos dá a esperança mórbida de que quando estivermos próximos do sufocamento tenhamos talvez, numa reversão abrupta de sentidos, um orgasmo total.
A sensação dentro do ônibus, no entanto, era de não mais caber no mundo. Como se fosse necessário me expelir, saltar pela janela. Fora da música, o caos era um terror. Algo em torno de trezentas pessoas se apertavam dentro daquela lataria verde. Meus pés mal encontravam lugar ao chão. A moça da frente achou que eu estava me esfregando nela de propósito. Depois ela percebeu que ao invés de um sacana tarado eu era ali nada mais que seu cúmplice. Nada que sugerisse orgasmo, nada de reversão abrupta de sentidos. Sufocamento apenas.
Mas havia muita cumplicidade naquele esfregar involuntário de corpos. Na expressão dos rostos uma revolta silenciosa, mas muito presente e muito sentida. Em algum momento balbuciei quase involutariamente a palavra caos [como rosebud] e três pessoas me olharam concordando, quase respondendo alguma coisa. Será preciso soltar crocodilos dentro dos ônibus urbanos de Feira para que a cidade olhe em volta e comece a se importar um pouco mais consigo mesma?
terça-feira, 4 de agosto de 2009
Queremos saber.
Escrevo coisas que só são importantes porque estão escritas, mais nada. Pedaços de mim estão espalhados aqui por toda parte. Ali, naquele canto direito (abaixo), por exemplo, onde fica o arquivo do blog, no mês de junho constam onze postagens. Os títulos já não aparecem mais. É como um baú que se fechou com antigas cartas nunca enviadas para ex-paixões do colégio no interior. Eu trouxe o mundo para esse baú. Portanto, também sou responsável por fazer da internet a maior lixeira de vida que os seres humanos foram capazes de inventar.
Imagine alguém, pode ser eu mesmo, revisitando arquivos do mês de junho de dois mil e nove, no futuro em que talvez tenhamos no mundo virtual a nossa vida principal, e lendo lá coisas sobre meu quarto tal como ele é hoje; sobre a rodoviária de euclides da cunha; sobre a janela do ônibus a caminho de monte santo. Não existe critério algum para a escolha entre escrever sobre um café amargo que tomei domingo a noite ou as cenas inacreditáveis de Lawrence de Arábia, que reassisti ontem.
Lixo. Minha vida aqui se soma à essa imensa lixeira virtual. E agora, com o twitter, já posso jogar no lixo pensamentos fortuitos ainda mais fragmentados do que os deste blog. No futuro, quando quiser saber quem fui agora, poderei revirar o lixo e tentar encontrar nestes fragmentos os vestígios desse passado perdido no tempo virtual. Chico Buarque diria que decifrar os ecos destas antigas palavras é tarefa vã. O eu que me lê no futuro, entretanto, é que terá que preencher os vazios com mitos do que fui. E então, já não saberei quem sou, mas o que acho que fui.
Hoje pela manhã pensei que o google certamente vai falir e talvez esse blog seja extinto para sempre. Eu não tenho banco de arquivos no word. Senti frio. Será isso mesmo? Melhor não deixar pistas? (...) Mas, talvez, por puro deleite de abrir uma brecha no tempo para falar comigo noutros planos, eu faça um backup do conteúdo do provocações. Ou seria melhor imprimir?
quarta-feira, 29 de julho de 2009
Contexto.
Sobre o que se conversava pouco importava para o velho. Importa mesmo é que ele já não servia para nada; que velho só serve para se escorar um no outro; que velho quando tomba tem mesmo é que morrer; que essa coisa de céu e inferno é coisa inventada para ganharem dinheiro de velho por aqui; que a morte é uma grande piada divina. E se ria, encostado que já estava na casa dos noventa anos.
A reinvenção da morte não poderia ser mais natural na sua condição. Já não tem com quem e para quem contar. Só seus velhos companheiros. Mas de que adianta contar coisa para velhos, tão inúteis quanto ele? Os velhos, de fato, parecem já não servir para nada. Ninguém lhes dá ouvidos. Não se aprende mais a viver ouvindo como, quando moleques, capturaram sua primeira rês perdida pelas caatingas do São Francisco. Não existem mais reses perdidas no sertão do São Francisco. Só pessoas. Por alguma razão, que me parece ainda obscura, um estouro de gentes que seguiam juntas pela estrada foi seguido de um refúgio que parece sem volta.
Que o mundo seja mesmo assim, governado por seqüências de acasos entre uma escolha e outra, ou entre uma imposição e outra, não cabe aqui discorrer. A errância pelo mundo também ensina e certamente substituirá as longas noites de lamparinas e estórias. Da mesma forma, os velhos procurarão outro destino para tantas vivências e sabedorias acumuladas. Quem sabe, vez em quando, não apareça um menino vindo de terras longínquas, capaz de escutar com atenção e deslumbre as peripécias de aventuras quase esquecidas? Quando não, ao menos a morte deixa de ser uma companheira sombria e já lhes parece um destino mais natural do que uma vida sem sentido.
Consideremos agora o texto acima como independente desta parte que agora escrevo. Hesitei muito antes de postá-lo como está. Resolvi a questão no instante em que pensei e decidi escrever esta parte explicando o porquê de ter publicado dessa maneira.
O fato é que a primeira parte, já que o texto é dividido, não sem razão, por três asteriscos ladeados e centralizados, é uma narração que basta em si mesma; a segunda parte é apenas um comentário – ou uma crítica, se eu me julgar capaz de ser pretensioso. Portanto, construí uma narrativa, e junto a ela anexei a minha crítica à essa mesma narrativa. Pensei o porquê de ter feito isso. Pensei. Não seria melhor que cada leitor interpretasse o texto à sua maneira e disso tirasse as suas próprias conclusões? Porque eu iria empobrecer tão deliberadamente um texto tão bem acabado em dois mínimos parágrafos?
Decidi publicá-lo, ainda assim, da forma como foi. Pensei que eu não quero apenas sistematizar leituras das coisas e jogá-las no mundo como se eu não existisse. Um leitor mais ortodoxo poderia dizer: ora, apareça no texto! Se desejar ser sutil, o faça, mas esteja lá. Diga que você estava sentado numa cadeira assistindo aquela cena e sentido cansaço e calor, e que os braços doíam de tanto segurar a direção da moto naquele areião sem fim.
Poderia fazer isso. Mas não quis fazer. Simplesmente optei por descrever a cena. Depois, senti falta de mim ali, mas não quis alterar algo que nasceu com uma certa naturalidade. Este conflito me levou a escrever a crítica que segue o texto. Eu preciso estar ali, a minha opinião sobre as coisas precisam acompanhar a descrição crua das coisas. Isso é muito perceptível em vários pósts deste provocações.
segunda-feira, 27 de julho de 2009
Cardápio, por favor.
Por Juliana Ribeiro.
[http://www.flickr.com/photos/juribeir0/]
Muito movimento na praça, umas três pizzarias abertas e mais uns dois botecos com sinuca (claro!). No entanto, optamos por uma churrascaria lá na entrada da cidade... a pizza poderia ser muito indigesta à noite. (que coisa!)
A churrascaria tinha um movimento, umas duas mesas de gente bebendo e conversando do lado de fora, uma sinuca com uns dois jogadores do lado de dentro e um som agradável ao estilo aviões do forró.
Logo chegou uma moça pra nos atender. Naturalmente pedimos uma cerveja e... “o cardápio porfavor”. Cardápio? Ela nos olhou com a cara de quem não sabia como agir diante de duas pessoas tão estranhas. “peraê”. Voltou. “É que... Eu vou chamar ali o dono”.
Veio um rapaz que não era o dono: “boa noite, vocês querem pedir?”. E nós já desconcertados por ter pedido o tal cardápio, não cometemos o mesmo erro:
– Err... A gente queria saber assim o que tem.
Ele disse que tinha “bode... (_____) calabresa... (_____) frango...”
Fiquei sem saber se devia perguntar:
– E carne de boi, tem?
– Ah sim, tem carne de boi também. Coração? Coração não tem não.
– Hum, certo. (pausa) Eee... como as pessoas costumam pedir aqui?
– Hum... Eu vou chamar ali o dono que ele explica.
Depois de conversar com o dono entendemos que de fato não existe um cardápio ou um preço pra alguma coisa. Ele, acho que já avisado, nos tratou como verdadeiros turistas estranhos numa terra que turista não é um bicho tão comum quanto bode! Disse que era tudo muito bom, gostoso e que a gente dava o preço. Explicamos o que queríamos. Ele falou que entre 10 e 20 reais ele fazia lá a quantidade. Ele trouxe o que achou que valia 15 reais... E foi muita carne!
Ainda ganhamos de entrada pititingas do açude Cocorrobó com gosto rançoso e aparência de que tinham acabado de ser pescadas e jogadas no óleo com aqueles olhinhos esbugalhados. Só com muito limão em cima... E graças a tudo isso estava uma delícia!
Continuo sem entender como aquilo ali funciona. Ajudou um pouco quando compreendi depois que nas duas mesas cheias estavam sentados os donos. De uma mesa saiu o dono que nos atendeu, e da outra veio a esposa dele me perguntar se estava gostoso com o sorriso improvisado das baianas de acarajé do Pelourinho em Salvador.
Sem querer ferir seu orgulho sertanejo... Fomos turistas em Canudos!