segunda-feira, 24 de agosto de 2009

A Roda.


Tem aquela história da cobra e da picada, do feitiço e do feiticeiro. Adapte-se aos novos tempos é a máxima que o movimento frenético da roda do progresso balbucia como mantra aos ouvidos. Começam, entretanto, a aparecer sinais – virtuais que sejam – a nos permitir interpretar que adaptar-se aos novos tempos pode significar justa e paradoxalmente o desprezo pela roda.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Sobre...

Eu não acredito na existência de ... simplesmente porque entendo que se existe uma harmonia que dá sentido ao universo, não vejo porque ela teria vontade própria como um ser humano qualquer; não é meu pai, nem filho do pai, tampouco espírito santo. Ou não. Gosto de Jesus, mas não gosto de Cristo. Gosto de Jesus vivo, não gosto de Jesus morto. Respeito quem resolve suportar o peso de estar num lugar que não sabemos direito o que é, nem porquê, por meio da fé que redime a culpa por estarmos vivos; ocorre que não me convém resolver as coisas dessa forma porque não pretendo ter respostas para o que sei não haver resposta. Isso me faz, hoje, viver - quase - sem culpa. Gosto de movimento, gosto de pensar amanhã diferentemente do que penso hoje. Gosto de sentir o fluxo do mistério da vida me sacolejando todas as manhãs. Gosto de ser e estar.

domingo, 16 de agosto de 2009

Gota de resignação.

Chega de verdade, chega de querer parar o tempo, chega de oceano de revolta. Vivo a simplicidade das coisas. O mundo que cheiro, degusto e sinto. Chega de universo se movendo, viva o movimento do universo. Descanso em paz. Não encontro respostas para grandes perguntas e fico satisfeito. Amanhã tudo muda novamente e o turbilhão da vida prossegue seu curso tortuoso, quase aleatório, quase manuseado pela projeção de nós. Não sou nada em meio à tamanha imensidão. Sou um ponto se movendo em uma imagem de satélite, entre tantos outros pontos que, sem saber, constroem satélites que nos vêem e nada dizem sobre nós. Assim é a vida: besta e sem sentido. Para respirar é preciso, quando em vez, viver com toda intensidade essa falta de sentido. Inspira, respira. (...) Não é bom?

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Caos II

Feira de Santana às dezoito horas em muito se assemelha a uma metrópole. Ouvindo Arrigo Barnabé no mp3 player, aguardando transporte num ponto de ônibus lotado, senti alguma pulsão transbordada em faróis, ruídos de motores, anúncios luminosos e monóxidos de carbonos expelidos nos ares da Feira.

Arrigo Barnabé é daqueles que fizeram da sua arte uma obra póstuma. A violência do som dodecafônico não somente está em perfeita sintonia com o caos metropolitano como aponta para o que será ele no futuro, quando não mais conseguirmos respirar sem sufocar quem estiver à nossa volta. A música de Arrigo nos dá a esperança mórbida de que quando estivermos próximos do sufocamento tenhamos talvez, numa reversão abrupta de sentidos, um orgasmo total.

A sensação dentro do ônibus, no entanto, era de não mais caber no mundo. Como se fosse necessário me expelir, saltar pela janela. Fora da música, o caos era um terror. Algo em torno de trezentas pessoas se apertavam dentro daquela lataria verde. Meus pés mal encontravam lugar ao chão. A moça da frente achou que eu estava me esfregando nela de propósito. Depois ela percebeu que ao invés de um sacana tarado eu era ali nada mais que seu cúmplice. Nada que sugerisse orgasmo, nada de reversão abrupta de sentidos. Sufocamento apenas.

Mas havia muita cumplicidade naquele esfregar involuntário de corpos. Na expressão dos rostos uma revolta silenciosa, mas muito presente e muito sentida. Em algum momento balbuciei quase involutariamente a palavra caos [como rosebud] e três pessoas me olharam concordando, quase respondendo alguma coisa. Será preciso soltar crocodilos dentro dos ônibus urbanos de Feira para que a cidade olhe em volta e comece a se importar um pouco mais consigo mesma?

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Queremos saber.

Um pensamento circular tem assombrado as minhas manhãs. Há muito tempo eu já pensava em comentar algo sobre a escrita em ambientes virtuais. A ‘www’ é um buraco negro que suga a nossa vida como um turbilhão. A internet é anti-matéria em estado puro.

Escrevo coisas que só são importantes porque estão escritas, mais nada. Pedaços de mim estão espalhados aqui por toda parte. Ali, naquele canto direito (abaixo), por exemplo, onde fica o arquivo do blog, no mês de junho constam onze postagens. Os títulos já não aparecem mais. É como um baú que se fechou com antigas cartas nunca enviadas para ex-paixões do colégio no interior. Eu trouxe o mundo para esse baú. Portanto, também sou responsável por fazer da internet a maior lixeira de vida que os seres humanos foram capazes de inventar.

Imagine alguém, pode ser eu mesmo, revisitando arquivos do mês de junho de dois mil e nove, no futuro em que talvez tenhamos no mundo virtual a nossa vida principal, e lendo lá coisas sobre meu quarto tal como ele é hoje; sobre a rodoviária de euclides da cunha; sobre a janela do ônibus a caminho de monte santo. Não existe critério algum para a escolha entre escrever sobre um café amargo que tomei domingo a noite ou as cenas inacreditáveis de Lawrence de Arábia, que reassisti ontem.

Lixo. Minha vida aqui se soma à essa imensa lixeira virtual. E agora, com o twitter, já posso jogar no lixo pensamentos fortuitos ainda mais fragmentados do que os deste blog. No futuro, quando quiser saber quem fui agora, poderei revirar o lixo e tentar encontrar nestes fragmentos os vestígios desse passado perdido no tempo virtual. Chico Buarque diria que decifrar os ecos destas antigas palavras é tarefa vã. O eu que me lê no futuro, entretanto, é que terá que preencher os vazios com mitos do que fui. E então, já não saberei quem sou, mas o que acho que fui.

Hoje pela manhã pensei que o google certamente vai falir e talvez esse blog seja extinto para sempre. Eu não tenho banco de arquivos no word. Senti frio. Será isso mesmo? Melhor não deixar pistas? (...) Mas, talvez, por puro deleite de abrir uma brecha no tempo para falar comigo noutros planos, eu faça um backup do conteúdo do provocações. Ou seria melhor imprimir?

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Contexto.

a Franz Kafka
a Walter Benjamim
a Jorge Luis Borges

Uma praça, uma igreja, palavras interrompidas por goles de café doce e fraco. Não me recordo do nome do pequeno povoado. Na calçada, uma mulher solteira de meia idade, uma senhora já tanto idosa e com dores agudas na coluna, e o velho. Conversa de fim de tarde.

Sobre o que se conversava pouco importava para o velho. Importa mesmo é que ele já não servia para nada; que velho só serve para se escorar um no outro; que velho quando tomba tem mesmo é que morrer; que essa coisa de céu e inferno é coisa inventada para ganharem dinheiro de velho por aqui; que a morte é uma grande piada divina. E se ria, encostado que já estava na casa dos noventa anos.
***

A reinvenção da morte não poderia ser mais natural na sua condição. Já não tem com quem e para quem contar. Só seus velhos companheiros. Mas de que adianta contar coisa para velhos, tão inúteis quanto ele? Os velhos, de fato, parecem já não servir para nada. Ninguém lhes dá ouvidos. Não se aprende mais a viver ouvindo como, quando moleques, capturaram sua primeira rês perdida pelas caatingas do São Francisco. Não existem mais reses perdidas no sertão do São Francisco. Só pessoas. Por alguma razão, que me parece ainda obscura, um estouro de gentes que seguiam juntas pela estrada foi seguido de um refúgio que parece sem volta.

Que o mundo seja mesmo assim, governado por seqüências de acasos entre uma escolha e outra, ou entre uma imposição e outra, não cabe aqui discorrer. A errância pelo mundo também ensina e certamente substituirá as longas noites de lamparinas e estórias. Da mesma forma, os velhos procurarão outro destino para tantas vivências e sabedorias acumuladas. Quem sabe, vez em quando, não apareça um menino vindo de terras longínquas, capaz de escutar com atenção e deslumbre as peripécias de aventuras quase esquecidas? Quando não, ao menos a morte deixa de ser uma companheira sombria e já lhes parece um destino mais natural do que uma vida sem sentido.

***

Consideremos agora o texto acima como independente desta parte que agora escrevo. Hesitei muito antes de postá-lo como está. Resolvi a questão no instante em que pensei e decidi escrever esta parte explicando o porquê de ter publicado dessa maneira.

O fato é que a primeira parte, já que o texto é dividido, não sem razão, por três asteriscos ladeados e centralizados, é uma narração que basta em si mesma; a segunda parte é apenas um comentário – ou uma crítica, se eu me julgar capaz de ser pretensioso. Portanto, construí uma narrativa, e junto a ela anexei a minha crítica à essa mesma narrativa. Pensei o porquê de ter feito isso. Pensei. Não seria melhor que cada leitor interpretasse o texto à sua maneira e disso tirasse as suas próprias conclusões? Porque eu iria empobrecer tão deliberadamente um texto tão bem acabado em dois mínimos parágrafos?

Decidi publicá-lo, ainda assim, da forma como foi. Pensei que eu não quero apenas sistematizar leituras das coisas e jogá-las no mundo como se eu não existisse. Um leitor mais ortodoxo poderia dizer: ora, apareça no texto! Se desejar ser sutil, o faça, mas esteja lá. Diga que você estava sentado numa cadeira assistindo aquela cena e sentido cansaço e calor, e que os braços doíam de tanto segurar a direção da moto naquele areião sem fim.

Poderia fazer isso. Mas não quis fazer. Simplesmente optei por descrever a cena. Depois, senti falta de mim ali, mas não quis alterar algo que nasceu com uma certa naturalidade. Este conflito me levou a escrever a crítica que segue o texto. Eu preciso estar ali, a minha opinião sobre as coisas precisam acompanhar a descrição crua das coisas. Isso é muito perceptível em vários pósts deste provocações.

Sei que há um risco enorme que eu reduza as possibilidades interpretativas dos leitores e com isso, como já dito, meu texto empobreça de sentido. É um risco. Mas confio em meus leitores. Já tive evidências aqui que as pessoas podem pensar ao lado e para além do que eu penso dizer. Enfim. Mas façam o exercício de ler a primeira parte – a narrativa – de forma independente da minha interpretação. Quem sabe os navegantes leitores não sintam com maior grandeza e naturalidade o que tentei dizer com outras palavras, de sentido tão limitado, na segunda parte.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Cardápio, por favor.

Por Juliana Ribeiro.

[http://www.flickr.com/photos/juribeir0/]

Um trecho importante foi omitido do diário. Vale lembrar que após retornarmos exaustos, fomos curtir um pouco a night de Canudos.

Muito movimento na praça, umas três pizzarias abertas e mais uns dois botecos com sinuca (claro!). No entanto, optamos por uma churrascaria lá na entrada da cidade... a pizza poderia ser muito indigesta à noite. (que coisa!)

A churrascaria tinha um movimento, umas duas mesas de gente bebendo e conversando do lado de fora, uma sinuca com uns dois jogadores do lado de dentro e um som agradável ao estilo aviões do forró.

Logo chegou uma moça pra nos atender. Naturalmente pedimos uma cerveja e... “o cardápio porfavor”. Cardápio? Ela nos olhou com a cara de quem não sabia como agir diante de duas pessoas tão estranhas. “peraê”. Voltou. “É que... Eu vou chamar ali o dono”.

Veio um rapaz que não era o dono: “boa noite, vocês querem pedir?”. E nós já desconcertados por ter pedido o tal cardápio, não cometemos o mesmo erro:

– Err... A gente queria saber assim o que tem.

Ele disse que tinha “bode... (_____) calabresa... (_____) frango...”

Fiquei sem saber se devia perguntar:

– E carne de boi, tem?

– Ah sim, tem carne de boi também. Coração? Coração não tem não.

– Hum, certo. (pausa) Eee... como as pessoas costumam pedir aqui?

Pensei nas outras mesas em volta. Ele olhou com a mesma cara estranha e um riso amarelo acanhado. Devia estar rindo da gente.

– Hum... Eu vou chamar ali o dono que ele explica.

Depois de conversar com o dono entendemos que de fato não existe um cardápio ou um preço pra alguma coisa. Ele, acho que já avisado, nos tratou como verdadeiros turistas estranhos numa terra que turista não é um bicho tão comum quanto bode! Disse que era tudo muito bom, gostoso e que a gente dava o preço. Explicamos o que queríamos. Ele falou que entre 10 e 20 reais ele fazia lá a quantidade. Ele trouxe o que achou que valia 15 reais... E foi muita carne!


Ainda ganhamos de entrada pititingas do açude Cocorrobó com gosto rançoso e aparência de que tinham acabado de ser pescadas e jogadas no óleo com aqueles olhinhos esbugalhados. Só com muito limão em cima... E graças a tudo isso estava uma delícia!


Continuo sem entender como aquilo ali funciona. Ajudou um pouco quando compreendi depois que nas duas mesas cheias estavam sentados os donos. De uma mesa saiu o dono que nos atendeu, e da outra veio a esposa dele me perguntar se estava gostoso com o sorriso improvisado das baianas de acarajé do Pelourinho em Salvador.


Sem querer ferir seu orgulho sertanejo... Fomos turistas em Canudos!

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Viração.

Estive anteontem no bar quatro estações. Como todas as segundas feiras, dia para aproveitar a bohemia dobrada, alguém tinha que bater lá em casa para me convidar para o desfrute da promoção. Duas senhoritas - ao que me consta. Uma delas conheci por caminhos diferentes que se cruzaram em alguma encruzilhada dessas comuns numa cidade como feira de santana. A outra conheci por essas coisas do acaso mesmo. Ela é amiga da primeira. Entretanto, sobreviveu ao final já sem as sombras dessa adjetivação.

Sair de casa pode ser uma aventura imprevisível. Ainda mais quando não planejamos, ou seja, quando estamos despreparados. Ontem o mundo me fez algumas supresas, preparou alguns acasos que mais pareciam coincidências, e também me pregou algumas peças. Um senhor já demasiadamente embebido de álcool, ressucitado na sequência do beber e cair, veio à minha mesa por à prova algo como a estrutura das minhas pensações. Deixei bem claro que não preciso de estruturas para pensar. Gosto de pensar com elas, mas dispenso-as quando entendo necessário. Mas, enfim, eu diria que era um grande desafiante. O mundo, entretanto, parece me subestimar. Achar que eu não saberia lidar com aquela situação foi um derrapão grave da coincidência do acaso. Me provocou, mas não me convenceu. Mas gostei, afinal, do resultado da prova.

Como eu estava sentado em frente às portas dos banheiros, era comum que o fluxo do bar confluísse naquela direção. Isso fez com que pessoas que bebiam lá fora me vissem lá dentro do bar. Encontrei uma pessoa com a qual me deparo muito raramente. Mas o curioso, disse a ela depois de um papo ligeiro, é que parece que sempre estamos pensando a mesma coisa, na sequência. Disse que o acaso, vez em quando, fazia com que ela e eu, acredito que muito apegados às nosssas casas, saíssemos coincidentemente em direção ao mesmo local, no mesmo horário.

Em outra rara oportunidade semelhante, disse a ela da minha angústia com os primeiros minutos seguintes ao momento em que desperto. Nada do que havia pensado, calculado, planejado com tanta precisão no dia anterior fazia mais sentido naquele átimo de tempo. Tudo se derretia como gelo no deserto. Ela sentia a mesma coisa e rimos à bèça. Mas eu simplesmente não sabia como lidar com aquilo. Foi que a partir de certo tempo, decidi simplesmente não pensar nessa angústia amanhecida. Decretei à Razão, ilustre soberana de mim: é proibido pensar sobre quaisquer coisas minhas nos primeiros minutos após o acordar.

Pobre razão. Já havia perdido grande parte de mim para os sonhos que eu acabava de sonhar, tão logo a luz começava a entrar no quarto. Acho que esse tormento matinal é o tufão dos meus sonhos me soprando aos ouvidos... 'cuidado com a certeza! cuidado com as convicções! cuidado com os dogmas! cuidado com as religiões!'.

A razão, por enquanto, sempre me toma de volta - isso é fato. Mas já não reina absoluta. Disputa cada palmo de mim com o irracional, com o ilógico, com o incorreto. Já há algum tempo assisto essa luta dentro de mim. Hora eu torço para um; outra eu cruzo os dedos para outro. Sinceramente, gostaria que um dia eles se entendessem e parassem de brigar. Acho um pouco difícil. Mas não desgosto em ver os dois brigando como crianças malcriadas, rebeldes. Como um pai que vê na luta entre os filhos um preparo para ambos enfrentarem o mau tempo do mundo, assisto a tudo com tranquila calma. Decidi, entretanto, já não aguardar um resultado final. Estou dizendo as coisas pra ver no que é que dá.